Um cliente pede uma sanduíche de €8 no marketplace. Chega ao dono do restaurante quanto? À primeira vista, €8. Na realidade, depois da comissão da plataforma, o cartão, o custo do produto e o tempo do funcionário, muitas vezes o que sobra é menos de €1. E, em pedidos pequenos, sobra zero.
Este artigo faz as contas com números reais do mercado português, sem meias palavras.
O que a plataforma cobra que ninguém escreve na fatura
Quando um marketplace de entrega mostra o preço ao cliente, tudo parece normal. O que muda é do lado do restaurante. Em Portugal, as comissões praticadas ficam tipicamente entre 20% e 30% por pedido, dependendo do plano contratado. A taxa não é só "de entrega" — é percentagem do valor total da conta, incluindo produtos que tu preparaste com margem apertada.
Vamos por um exemplo simples. Uma refeição individual a €12:
- Preço na app: €12,00
- Comissão a 25%: −€3,00
- Taxa de cartão (média 1,5%): −€0,18
- Custo dos ingredientes (30%): −€3,60
- Embalagem take-away: −€0,40
- Trabalho de preparo (10 min a €8/h líquidos): −€1,33
Sobra: €3,49 por refeição. Sobre o preço de venda, é 29% de margem.
Agora repete a conta com um pedido de €6 (bebida + snack):
- Preço na app: €6,00
- Comissão a 25%: −€1,50
- Taxa de cartão: −€0,09
- Ingredientes (30%): −€1,80
- Embalagem: −€0,30
- Trabalho de preparo: −€1,00
Sobra: €1,31. Isso é 21% de margem em cima do preço final — mas em valor absoluto, é dinheiro pra pouca coisa.
E, se o pedido for um refrigerante avulso de €2,50 que a plataforma aceita? A conta fica negativa. Tu perdes dinheiro a receber a encomenda.
O custo que não aparece: o cliente deixa de ser teu
Este é o ponto que muitos donos só percebem depois de dois anos. Dentro do marketplace, o cliente é da plataforma, não tua. Isso significa:
- Não sabes o número de telefone dele.
- Não sabes o email.
- Não podes enviar uma mensagem a dizer "abrimos o novo menu de verão".
- Não podes fazer um cartão de fidelidade.
- Não sabes sequer quantas vezes o mesmo cliente pediu.
Se amanhã a comissão subir de 25% para 30%, ou a plataforma decidir dar prioridade a um concorrente maior no algoritmo, tu não tens contra-argumento. Não é o teu canal, é o dela.
Quando o marketplace faz sentido
Não é para demonizar. Marketplaces trazem clientes novos que talvez nunca soubessem que o teu restaurante existia. Para os primeiros meses, ou para o mercado de fim-de-semana à noite quando as apps ficam ativas, funciona.
O erro é depender só disso. Um restaurante saudável tem:
- Um canal onde controla a marca, o preço e a relação com o cliente (site/loja online própria).
- Um canal onde aparece para clientes novos que ainda não te conhecem (marketplaces).
- Um canal de proximidade (passar à porta, redes sociais orgânicas, cartões físicos).
Ter os três reduz o risco de a plataforma um dia mexer nas regras e o teu negócio parar.
O que muda com uma loja online própria
Uma loja online própria não é um "clone gratuito do marketplace". É uma coisa diferente:
- Zero comissão por pedido. O que o cliente paga chega quase todo, tirando a taxa do cartão.
- A tua marca em vez de um logo entre dezenas. O cliente vê o teu nome, as tuas cores, as tuas fotos.
- O cliente é teu. Telefone, histórico, preferências — ficam contigo, não com uma plataforma.
- Sem intermediário nas decisões. Se quiseres fazer promoção de terça-feira, fazes. Se quiseres subir o preço, sobes. Não tens que pedir permissão.
Financeiramente, o mesmo pedido de €12 numa loja própria deixa cerca de €7 na tua conta em vez de €3,49. Duplica a margem. Não é marketing — é aritmética.
Custo mensal fixo? Sim, existe. Mas é fixo, não percentagem do que vendes. A partir de um certo volume — geralmente 30 a 50 pedidos por mês pelo canal próprio — já compensa. E, ao contrário da comissão, o custo não cresce quando tu cresces.
O que fazer a partir daqui
Se ainda não tens loja online própria, o primeiro passo é decidir onde colocar a energia. Não faz sentido substituir os marketplaces de um dia para o outro. Faz sentido criar o canal próprio agora, mesmo que só receba 10% dos teus pedidos no início, e ir crescendo essa fatia com o tempo.
Vale a pena começar por:
- Publicar a loja online (link com o nome do restaurante).
- Meter o link na bio do Instagram, na etiqueta das embalagens que já entregas, no cartão de visita.
- Nos primeiros pedidos, oferecer um pequeno mimo (bebida, sobremesa, desconto no próximo) para o cliente perceber que aquele canal é diferente.
- A partir do 3.º ou 4.º mês, começar a acompanhar quantos pedidos vêm por canal próprio vs marketplace, e ir ajustando.
O objetivo não é matar o marketplace amanhã. É deixar de estar refém dele.
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